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You And I

04
Jun17

"Amnesia" - Capítulo 7


JustAnOrdinaryGirl

 

 

Na manhã seguinte, ao chegar ao hospital, Clark passou pelo quarto de alguns dos seus pacientes para ver como tinham passado a noite, incluindo April. Apesar de ainda ser cedo, passavam poucos minutos das oito da manhã, April já estava acordada.

- Bom dia – Clark cumprimentou ao entrar – Acordaste cedo… está tudo bem? -Perguntou ao aproximar-se da cama dela

- Não dormi grande coisa – A jovem apenas disse, num tom que pareceu a Clark um pouco ríspido, ficando depois em silêncio durante uns minutos, enquanto ele verificava a ficha de paciente – Prometeu que não deixaria o John voltar mas ele esteve aqui ontem à noite – acrescentou de repente, deixando o médico surpreendido e um pouco irritado

- Eu pedi à enfermeira que não o deixasse entrar – informou-a

- Pois, mas a enfermeira… Emily… deixou – interrompeu-o

- Emily? – Perguntou Clark, lembrando-se depois quem era essa enfermeira – Ela costuma estar na pediatria. Provavelmente veio substituir alguém e não foi informada – esclareceu – Desculpa, April – pediu

- Tudo bem, a culpa não foi sua e eu não devia ter falado nestes modos – April disse – Mas por causa da visita dele eu lembrei-me de outras coisas – confessou – Ele disse-me “O problema é que tu já não tens casa” – contou, repetindo a mesma frase que John lhe dissera na noite anterior – E isso fez com que eu ficasse a pensar no assunto. Começaram a surgir outras imagens, outras memórias e eu comecei a lembrar-me de outras coisas, desta vez mais consistentes – explicou, encarando o médico

- Queres falar-me do que te lembraste? – Clark perguntou, sentando-se na cama, aos pés dela

- Eu lembrei-me novamente da instituição onde vivia e também de que fui expulsa de lá. Acho que a minha estadia lá nem sempre correu bem – começou, falando devagar e tentando lembrar-se de todos os pormenores que recordara sobre a sua vida – E lembrei-me que tinha um trabalho… num bar ou num café – acrescentou

- Sim, tu trazias na roupa um cartão de funcionário. Por isso é que sabíamos o teu nome – Clark contou-lhe e ela acenou – Era um café/bar que se chamava Julian’s. Nós procurámos, para saber se alguém de lá nos podia ajudar, mas fechou pouco tempo depois do acidente – informou-a

- Eu trabalhava lá, no balcão e a servir às mesas e… - parou antes de continuar a contar as suas memórias, pareceu a Clark que estava a tentar controlar as emoções – Eu acho que depois da instituição vivia no mesmo sítio onde trabalhava, nalgum quarto. Vivia com o meu namorado – acabou por contar e o médico viu que o seu estado emocional mudou por completo quando mencionou a palavra “namorado”. April respirou fundo antes de proferir as palavras seguintes – Eu acho que ele morreu – Ao dizê-lo a jovem desabou por completo, chorando todas as lágrimas que pareciam ter estado presas por muito tempo. Clark não sabia o que lhe dizer. Se aquilo era verdade, compreendia que deveria ser uma dor enorme e que não havia com certeza palavras que a pudessem amenizar. A única coisa que fez naquele momento foi aproximar-se o suficiente e envolve-la num abraço. April aceitou o abraço, chorando no ombro do médico que, naqueles últimos quatro meses, tinha sido, provavelmente, a única pessoa a estar sempre presente.

- Doutor Clark interrompo alguma coisa? – A voz fez com Clark e April se separassem. A rapariga continuava a chorar mas limpou a cara assim que viu quem tinha entrado no quarto. Clark levantou-se

- É claro que não, inspetora Lydia – o médico disse, aproximando-se para a cumprimentar com um aperto de mão – A April lembrou-se de algumas coisas, coisas perturbadoras e… - interrompeu-se, percebendo que não devia qualquer explicação – Calculo que venha interrogar novamente a April? – Perguntou

- Sim, venho – Lydia confirmou – E além disso vim também dar algumas informações – começou a fazer o seu trabalho, sentando-se na cadeira que estava ao lado da cama e mexendo nuns papéis que tinha na sua pasta – Devido às amostras de ADN e também devido ao reconhecimento facial conseguimos finalmente várias informações tuas, April – informou a jovem, que estava agora mais calma – E uma vez que já recuperaste alguma da tua memória, talvez possamos descobrir mais coisas, ligar dados – acrescentou

- As coisas de que me lembrei ainda não são muitas, apenas algumas coisas aqui e ali – April disse à inspetora, que assentiu e olhou novamente para os papéis

- O teu nome completo é April Sophia Evans e tens realmente 18 anos – Lydia começou pelos pontos mais simples – De acordo com os dados, viveste numa instituição desde que nasceste, os teus pais não tinham condições para te sustentar e decidiram dar-te para adoção. Infelizmente nunca apareceu ninguém que te adotasse. O teu comportamento era minimamente bom até por volta dos 15 anos. A partir daí houve algumas complicações mas eles não podiam fazer nada, como eras menos tinhas de continuar ali. Segundo o que nos disseram na instituição, quando fizeste 17 anos conheceste um rapaz e acalmaste um pouco. Porém, dois ou três meses antes de fazeres os 18 as coisas descambaram novamente, segundo eles por más companhias. Quando fizeste 18 anos eles decidiram que o melhor era saíres para que as outras raparigas que ali viviam não fossem influenciadas. Pelo que nos disseram vivias com o teu namorado. Mas não conseguimos informações sobre ele – Lydia disse, desviando o olhar dos papéis que tinha nas mãos e olhando novamente para April, que assimilava a informação que acabara de receber

- É normal não terem encontrado nada, ele morreu – April disse, séria, com o olhar focado no vazio. Depois olhou para a inspetora – Foi uma das memórias que recuperei – acrescentou – Eu acho que realmente vivia com ele, por cima do café onde trabalhava. – As lágrimas surgiram novamente

- Lamento ouvir isso, April – Lydia disse, claramente emocionada, mas tentando disfarçar – De que mais te lembraste? – Acabou por perguntar

- Posso confirmar que tudo o que disse é verdade – a jovem disse, olhando para a inspetora – Depois lembro-me de outros pormenores, de caras de pessoas, de algumas coisas que aconteceram na instituição, de trabalhar no Julian’s, de ter um namorado e de ele ter morrido. E também tive memórias de um acidente, sei que é isso que quer saber – April disse-lhe, deixando a inspetora claramente mais atenta – Mas as únicas coisas que vi foi um carro, chamas – explicou

- Inspetora, lamento interromper – Clark falou, fazendo as duas olhar para ele – A April começou a recuperar as memórias, lembra-se de coisas da vida dela, do dia-a-dia. O acidente, por ser algo mais traumatizante, pode demorar mais a recordar. O subconsciente por vezes bloqueia as memórias mas acredito que com o tempo, com alguns estímulos, ela possa começar a recordar mais pormenores. Até porque já se lembra de um carro acidentado, de chamas e isso já é um princípio – o médico explicou

- Muito bem, compreendo – Lydia assentiu – Isso quer dizer que ela vai ser acompanhada?

- Claro, nós sugerimos que a April seja acompanhada por um psicólogo – Clark disse – Até porque são a memória está a voltar, pode haver coisas que vão custar mais a assimilar, em especial se surgir tudo ao mesmo tempo. E porque a conversa poderá ajudar a desbloquear as memórias que ainda não recuperou – explicou, olhando para Lydia e para April – Claro que sendo maior de idade terá de ser a April a decidir o que será melhor, não a podemos obrigar, mas aconselhamos – concluiu

- Eu não me importo de consultar o psicólogo – April aceitou

- Ótimo – Lydia sorriu levemente – E em relação ao rapaz que costuma vir visitá-la, recordou-se de quem é? – A inspetora perguntou

- Não – a loira disse de imediato – A cara dele começa a não ser totalmente estranha mas ainda não me lembro dele. Ele diz que é de família mas… talvez fosse amigo do meu namorado – concluiu

- Penso que por hoje está tudo – Lydia acabou por dizer, levantando-se – Volto em breve. Quando é que a April terá alta, doutor? – Perguntou, lembrando-se que, dado o estado da rapariga, esta deveria ir embora em breve

- Se tudo correr bem, terá alta amanhã ou depois – Clark informou      

- Sendo assim, preciso que me digas onde vais ficar April, para depois ir ter contigo para falarmos novamente – a inspetora pediu – Vais ficar com o John, calculo, depois preciso de uma morada e…

- Não! – April interrompeu a inspetora, que arqueou uma sobrancelha – Eu não vou ficar com o John, não o conheço – explicou mais calmamente

- Então onde é que vais ficar? O café onde trabalhavas, e onde por acaso vivias, já não existe. Estão a fazer obras para o transformar numa loja – Lydia informou

- Eu não sei, mas eu desenrasco-me – April acabou por dizer – Tenho 18 anos, posso viver sozinha, arranjo um emprego e alugo um quarto, qualquer coisa – sugeriu

- Na verdade, inspetora Lydia, depois pode procurar a April nesta morada – Clark meteu-se, entregando à inspetora um papel que tinha estado a escrever durante a conversa das duas

- E que local é este, doutor? – Lydia perguntou, olhando confusa para o papel

- É a minha casa – disse, deixando as duas a olhar para ele, surpresas

- A sua casa? – Foi Lydia quem perguntou, fazendo a mesma pergunta que April tinha na cabeça

- Eu tenho um quarto para alugar há algum tempo, a April precisa de um sítio para viver até organizar a vida dela – Clark explicou – Parece que é uma ótima solução, dadas as circunstâncias – acrescentou, vendo o olhar de Lydia – Mas há algum problema, inspetora?

- Não é que haja um problema mas… - Lydia não sabia bem o que dizer – A April é sua paciente, faz isso com todos os pacientes?

- Até agora nenhum dos meus pacientes acordou de um coma e percebeu que não tem casa, família, amigos – Clark disse – Eu tenho um quarto para alugar e a April precisa de um. E ela é maior de idade se é isso que a preocupa, inspetora

- Bom, calculo que essa é uma decisão da April e sua, além de não ser relevante para a investigação do acidente – Lydia acabou por concordar – Eu entro em contacto consigo em breve, April – disse, olhando agora para a rapariga – Até à próxima – despediu-se dos dois e saiu do quarto do hospital

- Tem a certeza do que disse? – April perguntou assim que ficou a sós com o médico – Não tem qualquer obrigação para comigo, eu posso arranjar uma solução – a rapariga disse

- Eu não o fiz por me sentir obrigado – Clark explicou – É verdade que há algum tempo que ando a tentar alugar o quarto no meu apartamento e já que precisas de um sítio para ficar, lembrei-me de o sugerir – sorriu

- Mas sabe que eu só lhe vou pagar uma renda depois de conseguir um emprego? – April lembrou esse pequeno grande pormenor

- Isso quer dizer que aceitas ou que vais, pelo menos, pensar no assunto? – Clark perguntou, ficando a observar a expressão da rapariga, expectante.

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Boa tarde! Espero que gostem deste novo capítulo, que foi basicamente o interrogatório à April e algumas revelações sobre ela. O final eu sei que acabei assim, sem ela dar a resposta, mas era para vos deixar curiosos. Deixem aqui nos comentários o que acharam :) Obrigada a quem tem acompanhado. Fiquem bem e até ao próximo capítulo!

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