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You And I

23
Set17

"Amnesia" - Capítulo 22


JustAnOrdinaryGirl

 

 

Clark retirou a fotografia do bolso das calças e olhou para ela. Depois olhou para a casa à sua frente. Só podia ser aquela. Só esperava que Daisy ainda ali morasse.

Os pais de Clark tinham ido dar uma volta pela cidade. Aquilo era algo que ele queria e precisava fazer sozinho. Ganhou coragem e tocou à campainha.

- Doutor Clark?! – Daisy perguntou ao abrir a porta, visivelmente confusa – O que faz aqui? Aconteceu alguma coisa com a April? - Perguntou quase sem respirar

- Na verdade tinha esperanças que me pudesses dizer onde ela está, mas já percebi que não sabes – comentou e, vendo o olhar confuso da rapariga, contou tudo o que se tinha passado recentemente

- Lamento o que aconteceu – Daisy disse – Há alguma coisa que eu possa fazer?

- Na verdade sim. Preciso que me contes tudo o que aconteceu desde que conheceste a April. Especialmente as partes que envolvem o John e os amigos dele – explicou – Por favor, Daisy! – Pediu ao ver o receio e a dúvida no olhar dela

- Tudo bem, eu conto – acabou por concordar. Fez sinal ao médico para que entrasse na casa – Já agora, como é que sabia onde eu moro? – perguntou, curiosa desde que lhe abrira a porta

- Encontrei uma fotografia tua e da April nas coisas dela e reconheci o bairro – explicou enquanto caminhavam em direção da sala de estar. Sentaram-se um em cada ponta do sofá

- Preparado para ouvir tudo? – Daisy perguntou, fazendo algum tempo para se preparar – Pode demorar um bocadinho – avisou

- Demora o tempo que for preciso – Clark disse – E não te preocupes com o John, eu vou fazer de tudo para que vocês não saiam prejudicadas, tu e a April – garantiu

- Muito bem então, está na hora do conto – disse, claramente nervosa – Eu e a April conhecemo-nos no oitavo ano e ficámos as melhores amigas num instante – começou do início tal como o médico lhe pedira – Ela tinha todas as regras da instituição e eu tinha todas as regras aqui de casa e a nossa amizade era uma espécie de escape para as duas. Esgueirámo-nos tantas vezes para sair à noite, para estarmos juntas, alguns dias simplesmente a falar – recordou com alguma nostalgia no olhar.

- Calculo que esse tenha sido um dos motivos que a levaram a ser expulsa – Clark constatou, aliviando um pouco o ambiente

- Pois, as freiras não gostavam lá muito dessas atitudes, perturbava as outras miúdas, em especial aquelas santinhas que não partiam um prato – Ambos riram com o comentário de Daisy – Enfim, a nossa amizade foi crescendo e a April passou a ser parte da família. Os meus pais nem sempre gostaram muito dela, achavam que podia ser má influência, mas não era. Até começámos a acalmar um pouco com o tempo. O meu irmão, o Robert, estava a estudar no estrangeiro e quando voltou, dois anos depois, eu apresentei-o à April e eles deram-se tão bem. Foi tão bom vê-los a apaixonarem-se aos poucos – sorriu ao relembrar – Desculpe, isto deve ser um pouco estranho para si – disse

- Porque dizes isso? – Clark perguntou, apesar de ter quase a certeza do que Daisy ia responder

- Oh, vá lá. Não estaria aqui, disposto a enfrentar o John se não estivesse interessado na minha amiga – ela constatou. Clark ficou um pouco embaraçado e fez-lhe sinal para que prosseguisse – Bem, eles começaram a namorar. Na altura eu e a April já tínhamos 17 anos. O regresso do Robert estava a fazer-nos bem às duas e começámos a acalmar. Mas, uns três meses antes de ela fazer 18 anos as coisas mudaram. Numa saída à noite conheci o Adrian. Ele começou a namoriscar comigo e eu deixei-me levar. Afinal ver o meu irmão e a minha melhor amiga tão felizes fazia-me querer ter alguém. Curtimos e passámos a trocar mensagens. Uns dias mais tarde ele apresentou-me os amigos, o Tom e o Matheus, e o irmão, o John. O tempo foi passando. A April e o Robert também os conheceram e o meu irmão avisou-me que eles não eram propriamente as melhores pessoas e que de vez em quando já arranjavam confusão. Mas eu não liguei, eu gostava do Adrian. Houve um dia em que as coisas me começaram a parecer estranhas. Um dia estávamos na discoteca e o Adrian não parava de olhar para outras miúdas e para a maneira como dançavam. Eu comentei isso com ele e ele apenas me disse “Calma bebé, é trabalho”. Eu não percebi na altura, fui um bocado parva. E depois o Robert até se dava mais ou menos com eles mas nessa noite o John começou a fazer-se à April. Até a tentou beijar e agarrá-la. Claro que o Robert viu e houve uma cena de pancadaria na discoteca. Mas eu insisti em continuar com o Adrian e a minha relação com o Robert mudou. Ele ficou desiludido comigo. Quando apareceu o emprego no Julian’s o Robert não hesitou em aproveitar para sair de casa e passou a morar no quarto por cima do café. Na verdade ele estava desiludido comigo por eu continuar com o Adrian. – Fez uma pausa para pensar se estaria a esquecer algum pormenor – O Adrian começou a ficar estranho, além de continuar a observar outras quando saíamos. Depois vieram perguntas e pedidos. Perguntava-me se eu era virgem, se me fazia confusão estar com um homem mais velho. Noutros dias pedia-me para dançar na discoteca quando algumas bailarinas subiam para o balcão. E um dia, quando estava na garagem onde eles estavam sempre, pediu-me para lhe fazer uma dança sensual e para lhe fazer um striptease. Eu recusei. Apesar de estarmos numa relação não me sentia à vontade – Daisy parou por uns segundos, tinha as faces vermelhas

- Não precisas de me contar isso, se não quiseres – Clark disse-lhe

- Esta parte é fundamental – Daisy informou – Eu contei à April e ela ficou preocupada com a situação. E claro que foi contar ao Robert. Afinal naquela altura eles já viviam juntos há duas semanas, depois de ela ter sido expulsa da instituição. Ela contou-lhe, ele veio falar comigo e disse para eu me afastar. Eu tentei afastar-me mas um dia uns tipos na rua apanharam-me a mim e à April na rua e tentaram beijar-nos, agarrar-nos. Diziam que tinham pago para estar connosco naquela noite. Felizmente passou gente na rua e conseguimos fugir. Eu sabia que aquilo tinha sido obra do Adrian porque foi naquele momento que comecei a perceber as conversas dele, foi como se se tivesse feito luz na minha cabeça. O Robert começou a segui-los e a investigar o Adrian. Algum tempo depois descobriu que o Adrian era dono de um clube ilegal de prostituição e tudo isso. Ele conhecia um inspetor da judiciária e conseguiram apanhá-lo. O Adrian foi preso e o John jurou vingança. Ele sabia que só podíamos ter sido nós. Eu e a April fomos chamadas a testemunhar, anonimamente, e o Robert também. Mas mesmo com o cuidado da polícia eles sabiam que tínhamos sido nós. E foi aí que começaram as ameaças. – Clark percebeu finalmente como tudo tinha começado – E depois, numa noite, o telefone aqui de casa tocou. Era o Julian, em estado de choque a dizer que estava com a April e que o Robert tinha morrido. Eu fiquei em estado de choque. Eu tinha quase a certeza do que tinha acontecido e o sentimento de culpa era tão grande que me sufocava. Nessa noite eu e a April recebemos uma mensagem anónima a dizer que se voltássemos a abrir a boca as próximas éramos nós… ou os meus pais. Ficámos em pânico e não contámos nada. A April apenas disse que eles tinham sido assaltados e que o Robert tinha resistido. A polícia começou a investigação mas não encontravam nada. Foi feita a autópsia, foi confirmada a morte por espancamento e hemorragias e fizemos o funeral. Foi tão doloroso. E o John, o Matheus e o Tom estavam lá, como se não fosse nada com eles. Ver a April naquele estado doeu tanto. Os meus pais. Até o Julian estava lá como se tivesse perdido um filho. Eu não aguentei. Eles continuavam a ameaçar-nos para terem a certeza que não abríamos a boca. A April só falava em vingança. Eu tinha de sair daqui. Fui para Londres. Temos família lá e o Robert já tinha trabalhado lá. Mas agora achei que estava na altura de voltar, precisava de ver a minha família, a April. Precisava de estar perto do Robert. E o resto o Clark já sabe – concluiu e por momentos os dois ficaram em silêncio.

- Obrigada por me teres contado tudo, Daisy – Clark agradeceu

- Na verdade foi bom desabafar com alguém depois destes meses de sofrimento – Daisy confessou – Tudo isto tem sido horrível – acrescentou – Calculo que vai fazer alguma coisa com o que lhe contei

- Sim, vou ter de fazer alguma coisa, Daisy – Clark confirmou – Eu precisava de saber a verdade antes de tomar qualquer decisão. Tu e a April já sofreram demasiado com esta situação e está na hora de isto ter um fim. Eu vou falar com a polícia, apresentar queixa por agressão contra o John. E se conseguir falar com a inspetora Lydia vou contar-lhe tudo. Ela precisa de dados para a investigação. Na carta, a April disse que provavelmente iria à polícia e se ela o fez o facto de eu ir contar tudo pode ser uma grande ajuda. Não te posso pedir que fales com a polícia mas peço-te que, se alguém te vier interrogar, não tenhas medo. Já somos muitos contra o John. – Clark disse e levantou-se – Agora tenho mesmo de ir. Obrigada, Daisy – sorriu-lhe e ela retribuiu

Dirigiram-se para a porta e antes que a pudessem abrir alguém a abriu do lado de fora. Era uma mulher, bastante parecida com Daisy, e Clark calculou que fosse a mãe dela. Estava acompanhada por um homem que pareceu familiar a Clark mas não tinha a certeza de onde o conhecia

- Boa tarde – Os dois cumprimentaram e Clark e Daisy retribuíram – Não sabia que tinhas visitas, querida – a mulher comentou, olhando para o médico

- Este é o Clark, ele é o médico que tem acompanhado a April – a rapariga apresentou – Clark, esta é a minha mãe, a Carmen e é o Julian, o antigo patrão da April e do meu irmão – feitas as apresentações, os quatro sorriram – O Clark veio cá para falar da April

- Mas há algum problema com ela? – Carmen perguntou, visivelmente preocupada

- Não, mas uma vez que ela ainda está com amnésia andamos a recolher alguma informação para a tentarmos ajudar – Clark disse de repente, evitando mais perguntas e pormenores – Eu já tinha conhecido a Daisy e achei bom falar com ela – acrescentou

- É verdade, mas o doutor já está de saída – Daisy disse – Eu acompanho-o lá fora – Clark despediu-se de Carmen e Julian e seguiu Daisy até à rua – Obrigada por não ter dado pormenores – agradeceu, aliviada

- Não te preocupes, a nossa conversa não sai daqui – o médico garantiu – Bem me pareceu que conhecia o homem que estava com a tua mãe. Vi-o numa fotografia da April – recordou-se

- O Julian, além de ter sido patrão do Robert também é amigo da minha mãe há alguns anos – Daisy explicou – Na verdade, apesar de ela não saber que eu sei, eles os dois foram namorados há bastante tempo atrás – confessou com um sorrisinho

- Namorados? – Clark perguntou, surpreendido

- Foi uma relação dos tempos de faculdade, ou de antes, mas eles continuaram bons amigos. Ele tem sido um bom apoio para a minha mãe – acrescentou, feliz por saber que a mãe tinha alguém com quem partilhava uma grande amizade

- Isso é bom – Clark apenas disse – Bem, agora vou mesmo andando. Vou ter com os meus pais e depois vou à polícia – informou – Mais uma vez obrigada, Daisy. E se vires a April, diz-lhe que eu estou bem mas que tenho saudades. – Pediu

- Assim farei, doutor – Daisy sorriu e ficou a vê-lo afastar-se.

Clark foi ter com os pais ao sítio que tinham combinado e onde fariam um breve almoço. Depois disso ele iria à esquadra contar toda a verdade. Só esperava que Lydia estivesse por lá e estivesse disposta a ouvir tudo o que ele tinha a contar. E que, acima de tudo, tivesse em conta as suas palavras e investigasse John de uma vez por todas.

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Boa tarde! Aqui fica mais um capítulo de revelações. Eu sei que não é uma história por aí além mas era o que eu tinha pensado no início, quando comecei a ter ideias para a história, e espero que vocês tenham gostado. Ah, e esta não vai ser a última revelação. Ainda há uma ou outra coisa por descobrir. Agora resta saber o que acontece se o Clark contar à Lydia e se o John vai ou não descobrir que eles o estão a tentar tramar. Espero mesmo que tenham gostado :) Para a semana temos de volta a Lydia, a April, a Mia e o John também :) Fiquem bem e até ao próximo capítulo! 

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