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You And I

16
Set17

"Amnesia" - Capítulo 21


JustAnOrdinaryGirl

 

 

O polícia com que tinha falado voltou uns minutos depois e pediu a April que aguardasse uns momentos pela inspetora. April sentou-se numa cadeira na receção e esperou, ansiosa. Olhava à sua volta, observando as pessoas que ali estavam: vários polícias, pessoas a apresentar queixas, pessoas que, tal como ela, esperavam para falar com alguém. Até um criminoso tinha chegado entretanto, algemado. A palavra “criminoso” ficou a pairar na sua mente. Nunca se sabia se, no final da conversa com Lydia, não seria ela a sair dali como criminosa. Tentou afastar aquela ideia e inspirou com força. Ainda não tinha parado quieta desde que se sentara. Finalmente, depois do que lhe pareceu uma eternidade, viu a inspetora aproximar-se e levantou-se.

- Bom dia April – A inspetora cumprimentou assim que se aproximou o suficiente para que a jovem a ouvisse – O meu colega diz que tem algumas informações sobre o acidente – disse, mostrando que já sabia a razão para April ali estar – Vamos até ao meu gabinete, pode ser? – April apenas assentiu e seguiu Lydia até uma pequena sala, onde ambas se sentaram – Quer tomar um café ou uma água? – Ofereceu

- Não é preciso, inspetora, obrigada – April recusou o pedido com um breve sorriso – Eu preciso mesmo de falar consigo por causa do acidente… ou sobre o que levou a esse dia… - A jovem confessou deixando Lydia completamente interessada

- Já recuperou a sua memória? – A inspetora perguntou ao mesmo tempo que se preparava para escrever as informações no computador.

- Não, mas há algumas coisas que eu já sei – A rapariga confessou – Pode não ser grande ajuda mas eu preciso mesmo de lhe contar. E além disso… - ganhou coragem para dizer aquelas palavras – Eu também quero fazer uma denúncia - anunciou

- Uma denúncia? – Lydia não estava à espera daquilo – Que tipo de denúncia?

- Vai perceber assim que eu lhe contar tudo o que sei – April explicou – De algumas coisas eu lembrei-me e outras foram-me contadas pela minha melhor amiga e por um dos envolvidos na história – acrescentou

- Muito bem, vamos lá então resolver este caso de uma vez por todas – Lydia concordou. Estava ansiosa por apanhar os culpados. Levantou-se e ligou uma câmara de vídeo que tinha no gabinete. – Pode começar assim que estiver preparada.

- Eu lembrei-me de algumas coisas da minha vida na instituição mas nada disso vai ajudar neste caso. Eu era apenas uma miúda rebelde sem família – April começou, contando primeiro a parte mais fácil de contar - Mas no oitavo conheci a minha melhor amiga. Foi ela quem me apresentou ao Robert – contou. Lydia tinha os olhos postos nela

- O Robert era o seu namorado, certo? – A inspetora perguntou, recordando aquele nome de conversas anteriores

- Sim – A jovem confirmou e endireitou-se na cadeira. Era agora que a parte mais complicada da história ia chegar – Eu reencontrei a Daisy há uns dias. Ela não me contou todos os pormenores, tinha medo que a minha memória voltasse toda ao mesmo tempo e me acontecesse alguma coisa – Fazia algumas pausas para garantir que se lembrava de tudo aquilo que queria contar – Enfim, ela contou-me que a dada altura o John entrou nas nossas vidas – acrescentou antes de a inspetora falar

- E esse John é o mesmo que a visitava no hospital? Aquele que é da sua família? – Lydia quis saber de modo a não perder o fio à meada

- Sim, ele visitava-me mas não é da minha família – viu Lydia arquear uma sobrancelha – Ele apenas disse isso para os médicos o deixarem entrar, para poder controlar a situação – explicou, vendo que a inspetora ficou ainda mais confusa depois de ouvir aquilo – Para poder controlar a minha situação e evitar que eu falasse com a polícia – explicou, desta vez mais especificamente

- Continue, por favor – Lydia incentivou a rapariga que se tinha calado por uns segundos – Tenho a certeza que está a chegar à parte mais interessante se assim lhe podemos chamar – A mulher viu April concordar com ela

- O John tem um irmão preso – começou – Aparentemente, pelo que a Daisy me contou, o Robert teve algo a ver com isso – falava aos poucos, dando espaço à inspetora para assimilar tudo aquilo – E pelos vistos eu e a Daisy também estamos metidas nisso. Enfim, lembra-se de me dizer que o Robert foi assassinado num beco perto do café e que eu quase ia morrendo também? – Perguntou

- Lembro-me disso – Lydia confirmou – Aqui a amnésica é… esqueça, foi um comentário infeliz – disse ao ver a expressão de April – Continue, por favor – pediu

- Quem matou o Robert foi o John e os dois rapazes que morreram no acidente onde eu estava – April disse aquelas palavras e sentiu uma espécie de alívio. Há imenso tempo que guardava aquilo dentro de si e era bom poder contar finalmente a verdade

- Tem a certeza do que está a dizer? – Lydia estava estupefacta com o que acabara de ouvir

- Sim, essa foi uma das memórias que eu recuperei – April confirmou – No princípio não tinha a certeza, pensei que fosse apenas um pesadelo. Mas quando a inspetora foi lá a casa eu voltei a ver essas imagens e eu sei que são reais, lembro-me de muitos pormenores para ser apenas um pesadelo.

- Desde que o Sr. Julian falou connosco que temos tentando investigar mas nunca conseguimos. Não há provas, ninguém viu nada – Lydia disse – Devia ter contado mais cedo, April! – Tentou manter o tom de voz moderado

- Eu sei que devias mas… - hesitou mas logo se recompôs. Já tinha chegado até ali e agora iria até ao fim – Eles fizeram aquilo para se vingarem por causa da prisão do irmão do John. Depois disso eu e a Daisy éramos, segundo ela, ameaçadas. Esse foi um dos motivos que a levou a sair do país. E depois eu tive o acidente e acabei por me esquecer de tudo... – Justificou

- E foi por isso que o John foi visitá-la ao hospital, para garantir que se a polícia investigasse o acidente não contava nada sobre o homicídio – Lydia concluiu

- Sim, esse era o motivo – A jovem concordou – E quando ele descobriu que eu estava amnésica ele ficou mais calmo mas avisou-me que se falasse dele talvez me arrependesse porque eu podia ter sido mais do que uma simples vítima – April contou e a inspetora voltou a ficar confusa – E depois no outro dia eu fui sair à noite com o Clark e…

- Clark é o seu médico, certo? – Perguntou apenas para confirmar

- Sim… - Não ia entrar em pormenores desnecessários para o caso – Nessa noite encontrámos o John e ele queria saber do que eu já me tinha lembrado. Eu acabei por lhe dizer que sabia perfeitamente o que eles tinham feito ao Robert e ele ameaçou-me. E disse-me para me lembrar que talvez eu não seja apenas uma vítima. E depois perguntou-me se eu sabia o motivo de eu estar naquele carro naquele dia – April parou ao perceber que a inspetora ia falar

- E lembra-se? – Apenas perguntou

- Não, mas ele fez questão de me dizer – April disse – Quando o Robert morreu, segundo o John, eu jurei que ia vingar a morte dele. O John e aqueles rapazes eram como irmãos. No dia do acidente eles encontraram-me na garagem onde eles costumavam estar sempre. Eles apareceram quando eu lá estava e puseram-me a dormir. Depois meteram-me dentro do carro e levaram-me para o John. Uma das imagens que eu tenho visto nos meus sonhos sou eu a acordar num carro e a gritar. Acho que isso é uma das minhas memórias daquela noite. A verdade é que nunca chegámos ao John, ficámos pelo caminho. – Acabou de contar e conteve as lágrimas.

- Isso quer dizer que, de acordo com o John, a April pode ter alguma coisa a ver com o acidente? – Lydia perguntou, apesar de ter a certeza da resposta

- Sim – A jovem apenas disse – E eu jurei que me ia vingar, inspetora – Uma lágrima desceu pela sua face

- Tem a certeza disso? – A inspetora queria ter a certeza antes de tomar decisões

- No outro dia à noite eu decidi abrir a última caixa que a inspetora me entregou. Lá dentro estava um diário. Eu consegui ler algumas páginas antes de me ligarem do hospital. Numa dessas páginas eu escrevi que me ia vingar nem que fosse a última coisa que eu fizesse – April confessou – Ah, na noite em que eu saí com o Clark e o John apareceu, o John começou a insultar-me em frente do Clark e o Clark deu-lhe um murro – A loira contou e Lydia arregalou os olhos, surpreendida – No outro dia, quando me ligaram do hospital, foi para dizer que o Clark tinha entrado nas urgências depois de ser espancado. Quando cheguei ao hospital encontrei o John. Estava lá para confirmar o estado do Clark – confessou. Lydia inspirou, ainda incrédula com tudo o que acabara de ouvir

- April, essas afirmações podem mudar muita coisa – Lydia alertou – É claro que vamos investigar o John, apurar os motivos que levam o irmão dele a estar preso. Mas em relação ao resto, acha mesmo que teria sido capaz de sabotar um carro, sabendo que isso poderia matar alguém? – Por muito que lhe custasse, Lydia tinha mesmo de fazer aquela pergunta.

- Eu quero acreditar que não, inspetora mas… - April inspirou fundo e limpou uma lágrima que lhe escorria pelo rosto – Eles mataram o meu namorado, ameaçavam-me a mim e à minha melhor amiga. A Daisy teve de abandonar o país. E eu escrevi num diário que me ia vingar – constatou os factos

- A Daisy e o Robert estavam relacionados de que maneira? – Lydia tinha-se esquecido de perguntar antes – Disse-me que ela é que os apresentou…

- Sim, eles eram irmãos – ela informou

- E porque é que decidiu vir à polícia apresentar queixa? Eu sei que antes do acidente não veio porque estava a ser ameaçada e depois perdeu a memória mas agora, pelo que disse, o John continua a ameaça-la. Por quê agora?

- Por causa do Clark – confessou sem qualquer hesitação – Quando me ligaram a dizer o que lhe tinha acontecido foi como se o meu coração se tivesse partido em mil pedaços. E depois quando percebi que tinha sido o John eu decidi que tinha de fazer alguma coisa. O Clark esteve comigo desde o início, fez muito mais do que era suposto fazer e eu não podia permitir que o meu passado o prejudicasse. Não mais. Tive de tomar uma decisão e comecei por sair de casa dele. Tinha de ser assim, antes que o John fizesse pior. E eu sei que posso acabar por ser culpada. Mas também quero que se faça justiça. Pelo Robert e pelo Clark. E talvez até por mim. Eu posso ser presa, tudo bem, mas assim sei que ele também paga. – Concluiu e fez um esforço ainda maior para não chorar novamente. Aquela era a atitude certa.

- Tomou a atitude certa, April – Lydia transformou o pensamento de April em palavras – Nós vamos continuar a investigar, tendo agora em conta tudo o que contou – garantiu – Provavelmente teremos de contactar a Daisy, além do John. E o Clark também será chamado por causa do que lhe aconteceu. Para essa queixa vamos precisar do depoimento dele. – Explicou e April apenas assentiu

- Desculpe não ter vindo mais cedo, inspetora – pediu – Mas agora espero que se faça justiça, dê por onde der. Mesmo que seja eu a condenada – acrescentou vendo a compaixão surgir no rosto da inspetora

- April, se for inocente nós vamos acabar por apanhar o verdadeiro culpado – Lydia descansou-a, apesar de não servir de grande coisa – E espero que recupere as suas memórias depressa – acrescentou com um breve sorriso

- Também eu espero – April confessou – Tudo o que quero é resolver isto e se for inocente poder finalmente reconstruir a minha vida

- Com o Clark? – Lydia perguntou e April ficou surpreendida – April, eu já percebi que alguma coisa se passa. Ele gosta de si. Caso contrário nunca teria feito o que fez.

- Porque é que a inspetora está sempre tão interessada na minha história com o Clark? - Perguntou sem rodeios – Desculpa a pergunta mas… sempre se mostrou interessada, faz perguntas. É por causa da diferença de idades? – April não ia insistir mais. Se a inspetora não queria responder, paciência. Talvez fosse apenas curiosidade e nada mais. Mas de repente a inspetora levantou-se e desligou a câmara com que tinha gravado a conversa. April estranhou mas esperou que fosse Lydia a falar.

- Quando eu tinha a tua idade, depois de terminar o secundário, estava a trabalhar num café e havia um cliente que ia lá imensa vez depois do trabalho. Àquela hora eu estava quase sempre sozinha e começámos a falar. Ele era giro, simpático e mais velho que eu. Mas eu não quis saber disso, estava completamente caidinha por ele. E ele também gostava de mim. Saímos juntos e de repente estávamos a namorar. Mas apenas um mês depois ele mudou. Ele andava metido com drogas, fumava. Eu só percebi isso com o passar do tempo. Depois ele começou a querer que eu dormisse com ele mas eu não queria, ainda não. Ele deixou aquilo por uns tempos mas depois continuou a insistir. Eu evitava estar com ele. E fiz a asneira de não contar à minha mãe e ao meu pai. Contei apenas a uma amiga. Um dia depois de uma saída com ela, fui para casa a pé e combinei de lhe mandar mensagem assim que chegasse. Mas ele apareceu pelo caminho e levou-me com ele. As falinhas mansas dele convenceram-me. Levou-me para uma festa com os amigos. Aquilo era só droga, álcool. Mas ele estava diferente naquela noite. Estava atencioso, querido, passou o tempo quase todo comigo. A minha amiga ligou-me nessa noite, devia ter achado estranho eu ainda não ter dito nada. Mas eu não atendi porque queria aproveitar o tempo com ele. Ele ofereceu-me uma bebida e eu aceitei. No dia seguinte acordei num quarto daquela casa, despida e sem saber o que tinha acontecido. Fiquei em pânico. A maioria das pessoas já tinha ido embora, estavam apenas as duas raparigas que tinham dado a festa. – April notou a tristeza na voz e no rosto da inspetora. Nunca pensou vê-la assim tão vulnerável – Perguntei por ele e uma das raparigas disse que ele tinha ido embora ainda de noite. Foi aí que eu percebi tudo. Comecei a juntar as peças. Peguei nas minhas coisas e saí dali a correr. Fui a pé, tentei acalmar-me e então liguei à minha amiga. Ela tinha passado a noite preocupada, sem saber de mim. E os meus pais a mesma coisa. Pedi-lhe que fosse comigo ao médico e as minhas suspeitas confirmaram-se – Lydia estava a chorar

- Lamento imenso que tenha passado por isso inspetora Lydia – April lamentou e também ela tinha vontade de chorar – É por isso que se preocupa tanto em relação ao Clark – April percebeu e viu Lydia assentir – Mas ele não é assim, eu tenho a certeza – a jovem garantiu

- Eu sei – Lydia concordou – Já consegui perceber isso, apenas queria ter a certeza de que estavas bem. Ele sempre pareceu preocupar-se e depois levou-te para casa dele. Preocupar-me com estes casos é parte do meu trabalho – explicou – Aliás, foi por causa do que se passou naquela noite que eu decidi tornar-me inspetora, para ajudar outras pessoas e para punir pessoas como aquele… - interrompeu-se a si própria e April assentiu

- Eu percebo e agradeço – April disse – Mas não se preocupe. Nem sequer sei se eu e o Clark nos voltamos a ver depois de tudo o que tem acontecido – desabafou

- Tenho a certeza que as coisas se vão resolver – Lydia tentou confortá-la – E eu garanto que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para descobrir a verdade o mais depressa possível

- Espero realmente que tudo isto se resolva depressa – April concordou – Mesmo que seja eu quem acaba presa – acrescentou – Bem, se não precisa mais de mim eu tenho de ir trabalhar – Ambas se levantaram e dirigiram-se para a porta do gabinete

- Só uma coisa, April – Lydia disse antes de a mais nova sair para o corredor – Não desista do Clark – aconselhou – Eu sei que as coisas podem parecer complicadas mas se acredita que ele é a pessoa certa, se gosta mesmo dele não desista. Além disso, não me parece que ele vá desistir, não depois de tudo o que tem feito – acrescentou e April apenas assentiu, saindo depois e deixando Lydia entregue ao seu trabalho.

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Boa tarde! E aqui fica mais um capítulo com algumas revelações. A April decidiu então contar tudo aquilo que já sabe à polícia e a inspetora Lydia fez também algumas revelações sobre o seu passado. O que acharam deste capítulo? O próximo capítulo passa-se exatamente à mesma hora em que este decorreu só que será a conversa do Clark e da da Daisy. Depois disso entramos na reta final! Espero que gostem do que aí vem. Entretanto deixem as vossas opiniões sobre esta conversa. Este capítulo é um pouco grande, desculpem, mas entusiasmei-me a escrever. Fiquem bem e até ao próximo capítulo :)

Ah, e fica aqui uma música que de certo modo me lembra um pouco a April e o Clark e como eles fazem tudo um pelo outro. Eu até já tenho algumas músicas que associo com a história e depois vou partilhar aqui uma espécia de playlist. Se conhecerem alguma música que se enquadre na história partilhem aqui nos comentários :)

E já agora, são #TeamApril&Clark ou #TeamMia&Clark? 

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