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You And I

02
Jul17

"Amnesia" - Capítulo 11


JustAnOrdinaryGirl

 

Depois de largar a bomba, a inspetora Lydia achou que o melhor seria dar a conversa por terminada, tendo em conta que April continuava na varanda, parada, e não voltara a dizer uma palavra. Clark acompanhou a inspetora ao carro, trazendo depois consigo as duas caixas e o pequeno saco de viagem que pertenciam a April. Entrou de novo em casa, pousou as coisas no quarto que agora pertencia à jovem e foi ter com ela à varanda. Debruçou-se na varanda, imitando-a, e deixou-se estar em silêncio, esperando que fosse ela a quebrar o silêncio. Mas April não o fez. Quando o sentiu ao lado dela, as lágrimas voltaram aos seus olhos, escorreram pelo seu rosto e a jovem não conseguiu evitar um soluço. Clark não hesitou e aproximou-se, voltando a puxá-la para um abraço.

- Vai ficar tudo bem – Clark apenas disse, tentando confortar a rapariga. Não mencionou mais o acidente para não a destabilizar ainda mais. Naquele momento April apenas precisava de espaço, de tempo para assimilar todas aquelas informações.  

Quando April se voltou a recompor, Clark soltou-a dos seus braços e voltaram os dois a encostar-se ao gradeamento da varanda.

- Eu sei que é uma pergunta estúpida mas… - Clark interrompeu-se, virando-se para a rapariga ao seu lado – Como é que te sentes? – Acabou por perguntar, fazendo April olhar para as mãos postas em cima do gradeamento da varanda

- Confusa, estranha, perdida – April respondeu, sem nunca desviar o olhar das mãos – Quando a inspetora estava a contar o que tinha descoberto sobre o Robert, sobre o acidente, eu senti a minha cabeça a latejar, sentia que havia memórias a querer voltar mas era tanta coisa que eu não me conseguia concentrar em nada, só via imagens desfocadas ou imagens de coisas que eu já me lembrei antes – contou, agora a olhar para o médico – É tão frustrante não conseguir saber o que se passou, não conhecer a verdade sobre mim, sobre o que se passou – inspirou com força, tentava controlar as lágrimas

- Eu acredito que seja, April, a sério que acredito – Clark falou – Mas também acredito que todas as tuas memórias vão voltar com o tempo, que com a ajuda certa, com os estímulos certos, tu vais lembrar-te de quem és, da tua antiga vida – tentou encorajar

- E se a pessoa que eu era fosse alguém… alguém mau, alguém por quem não valesse a pena lutar? – Perguntou com a tristeza e o medo evidentes na sua voz

- Talvez seja o contrário – ele disse, um pequeno sorriso na sua cara – Talvez sejas a pessoa que és agora, sorridente, simpática, amiga – disse-lhe

- Acabei de saber que o meu namorado foi assassinado e que provavelmente eu só escapei porque a polícia apareceu e que tive um acidente porque alguém sabotou o carro onde eu ia – April relembrou as notícias que Lydia lhes trouxera – O mais certo era alguém querer-me morta. Acha mesmo que há hipóteses de eu ser uma boa pessoa? – Perguntou com alguma ironia – Dadas as circunstâncias começo a duvidar disso

- Ou talvez tenha sido apenas uma infeliz coincidência – Clark contrariou os pensamentos dela – Vamos fazer o seguinte – começou, organizando as ideias – Vais começar as tuas consultas com a psicóloga, vais levar um dia de cada vez. Quando estiveres pronta vais dar uma vista de olhos pelas coisas que a inspetora trouxe da tua antiga casa – Clark sugeriu fazendo April acenar em concordância – As memórias vão voltar e vamos lidar com o teu verdadeiro eu quando ele surgir. Até lá, vamos viver um dia de cada vez, combinado? – Sorriu-lhe e ela murmurou um quase inaudível “combinado”, um sorriso a tentar aparecer

Nesse dia, April e Clark acabaram por almoçar em casa e depois saíram rumo ao hospital. April decidira começar a terapia naquele dia. Queria recuperar as memórias que lhe faltavam e sabia que um psicólogo poderia ser uma grande ajuda. A primeira consulta foi simples, uma espécie de apresentação de ambas as partes, mas a jovem pudera desabafar e isso aliviou-a bastante. Sabia que podia desabafar com Clark quando precisasse mas não queria abusar, ele já estava a fazer muito por ela. Enquanto April estava na consulta, e como ainda tinha algum tempo antes da sua próxima consulta, Clark for ter com Mia. Bateu à porta do seu consultório e logo se ouviu uma voz a indicar que entrasse.

- Vim em boa altura ou estás muito ocupada? – Perguntou ao abrir a porta

- Podes entrar, tenho uns minutos antes da próxima consulta – Mia disse com o seu habitual sorriso – Achei que entravas só mais daqui a pouco – reparou

- Sim, ainda falta algum tempo para a consulta que tenho marcada mas vim mais cedo para deixar a April no psicólogo – informou, vendo depois os olhos de Mia revirarem ligeiramente – E também precisava de falar contigo – acrescentou

- Passa-se alguma coisa? – Perguntou, olhando séria para ele

- Não, queria apenas esclarecer uma coisa que tu viste e provavelmente entendeste da maneira errada – Clark disse, vendo-a erguer a sobrancelha, confusa – Foste a minha casa e viste a April com a minha camisola – clarificou

- Ah, isso – Mia recordou o momento – Sim, e depois ela disse que tu estavas a dormir – disse-lhe

- Sim, eu estava de facto a dormir – Clark confirmou e Mia acenou com a cabeça indicando que estava a perceber – Mas estava na minha cama. E a April dormiu na dela. Com a minha t-shirt, de facto… - viu as sua palavras serem cortadas pelas de Mia

- Não preciso de explicações, Clark, apenas fiquei surpreendida – a médica disse

- Não aconteceu nada Mia – Clark disse de uma vez – A April tinha a minha t-shirt porque ela precisava de um pijama. Ela não tinha mais nada para vestir além da roupa que levou daqui – contou, deixando a outra um pouco embaraçada – E ela sabia que eu estava a dormir porque sabia que eu tinha trabalhado de noite e não me viu quando se levantou – terminou a explicação, ficando à espera da reação da amiga

- Desculpa, Clark – Mia disse, um pouco sem jeito – Não sei o que me deu – justificou-se – A verdade é que me preocupo contigo. Tu não a conheces bem e tenho medo que acabes envolvido no meio desta história, ainda mais, e que acabes por sair magoado ou prejudicado – disse com um tom de preocupação e sinceridade – Desculpa – pediu

- Tudo bem – Clark disse, mostrando que não estaca chateado – E agradeço imenso a tua preocupação. Só não queria que ficasses a pensar coisas que não aconteceram – acrescentou

- Obrigada por teres vindo esclarecer as coisas – Mia sorriu-lhe e depois desviou o olhar para o relógio – Agora tenho mesmo de deixar a conversa, tenho uma consulta a seguir – anunciou. Clark assentiu e saiu do gabinete da amiga, dirigindo-se ao seu.

Nas duas semanas que se seguiram, April continuou as suas consultas e a verdade é que se sentia melhor desde que começara a terapia. Já se tinha lembrado de mais alguns pormenores da sua vida, apesar de ainda não serem muitos e de serem coisas mais banais. Mas o importante era que, com o tempo, as suas memórias, até mesmo as menos boas, iriam surgir. Para melhorar as coisas, April conseguira um trabalho em part-time, o que lhe permitia trabalhar de tarde e ir às consultas nalgumas manhãs. Viver com Clark também se revelara ser uma boa decisão. Os dois começavam a agir mais como colegas de casa e não apenas como médico/paciente. Aproveitavam para fazer as refeições juntos quando podiam, passavam algum tempo à conversa, maioritariamente sobre os seus dias, e até começaram a correr juntos quando tinham essa hipótese. April ainda não tinha mexido nas caixas que a inspetora tinha levado, apenas na mala onde estavam algumas roupas, sapatos, acessórios e produtos de higiene. Na terapia tinham chegado à conclusão que ela só o deveria fazer quando se sentisse totalmente preparada pois poderia recordar coisas que a abalassem, que fizessem com que tudo voltasse à estaca zero.

Uma tarde, quando estava a sair do trabalho, April ouviu uma voz dizer o seu nome. Olhou para trás mas não viu ninguém conhecido e fez tenção de voltar a caminhar.

- April? – Voltou a ouvir. Era uma voz feminina. Virou-se e reparou que na sua direção vinha uma rapariga loira, com os cabelos presos num coque rebelde, toda vestida em tons de preto. Quando estava suficientemente perto, a desconhecida abraçou April, deixando-a sem saber como reagir. Quando a rapariga a largou, April olhou-a, esperando que dissesse alguma coisa - Oh Meu Deus, és mesmo tu – A outra disse, um pouco eufórica

- Olá… - Foram as únicas palavras que saíram da boa de April, que não fazia ideia de quem a outra era

- Não sabes quem eu sou? – A desconhecida perguntou, bastante surpreendida. April abanou a cabeça, um pouco envergonhada para ser sincera – Sou a Daisy – anunciou, mas April precisava de mais qualquer coisa – Andámos juntas na escola desde o oitavo ano – acrescentou, não obtendo qualquer reação da outra – April, eu sou…ou era… a tua melhor amiga – falou deixando as palavras pairar entre as duas.

...............

Boa tarde! Aqui fica mais um capítulo. Espero que gostem deste novo capítulo em que a April começou a questionar-se quem era no passado depois de receber estas novidades. E conhecemos uma personagem nova, a Daisy, que vai estar presente no próximo capítulo e que será uma ajuda para a April, vai trazer mais novidades. Entretanto deixem as vossas opiniões e obrigada por estarem a acompanhar :) Fiquem bem e até ao próximo capítulo! 

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